terça-feira, 17 de março de 2009

E ainda a crise...

Vou fazer um slideshow para você.
Está preparado?


É comum, você já viu essas imagens antes.

Quem sabe até já se acostumou com elas.

Começa com aquelas crianças famintas da África.

Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.

Aquelas com moscas nos olhos.


Os slides se sucedem.


Êxodos de populações inteiras.

Gente faminta.

Gente pobre.

Gente sem futuro.


Durante décadas, vimos essas imagens.


No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto.

Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.

São imagens de miséria que comovem.

São imagens que criam plataformas de governo.


Criam ONGs.

Criam entidades.

Criam movimentos sociais.


A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza.

Ano após ano, discutiu-se o que fazer.

Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta.


Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo.


Resolver, capicce?

Extinguir.


Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta.

Não sei como calcularam este número.

Mas digamos que esteja subestimado.

Digamos que seja o dobro.


Ou o triplo.

Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.


Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.

Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão que resolvesse.


Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia. Bancos e investidores.


Como uma pessoa comentou, é uma pena que esse texto só esteja em blogs e não na mídia de massa, essa mesma que sabe muito bem dar tapa e afagar.


Se quiser, repasse, se não, o que importa?


O nosso almoço tá garantido mesmo…

Texto do Neto, diretor de criação e sócio da Bullet


fonte: http://influxo.wordpress.com/

quarta-feira, 4 de março de 2009

O Caminho do Bezerro

Após cruzar florestas virgens,
Como fazem os bons bezerros
Um bezerro retornou para casa;
Mas uma sinuosa trilha seu rastro deixou
Como todos os bezerros deixam.
Trezentos anos se passaram desde então,
O bezerro está morto, eu acredito.
Mas seu rastro ainda permanece,
E a moral da história está aí.

No dia seguinte o rastro farejado foi
Por um cão solitário que por ali passou;
Então o sábio vaqueiro
Seguindo a trilha por vales e estepes,
Trouxe o rebanho atrás de si,
Como os bons vaqueiros fazem.
E desde então surgiu grande clareira na mata,
Pela velha floresta surge um caminho.

E muitos homens por ela foram e voltaram
E alargaram, arrumaram, ampliaram.
E proferiram palavras de justa ira
Por ser tortuoso tal caminho.
Mas mesmo a contragosto ainda o trilharam,
A primeira trilha daquele bezerro,
Por entre árvores e entre espinhos ficou sinuosa
Pois cambaleava enquanto caminhava.

Este caminho na floresta virou rua,
Que curva, vira e curva novamente;
Esta rua torta virou estrada
De pobres cavalos com suas cargas
Labutando sob o ardente sol
Numa viajem de três milhas e meia.
E assim por um século e um meio
Seguiram nos passos daquele bezerro.

Os anos voaram velozes,
A estrada virou rua de aldeia;
E antes que os homens dessem conta,
Virou avenida congestionada da cidade;
E logo rua central de uma metrópole renomada;
E homens há dois séculos e um meio andaram
Na trilha de um bezerro. a cada dia cem mil
Pessoas seguem o cambaleio do bezerro;

Tal tortuosa jornada vira rota de continente.
Por onde passam cem mil homens
Passou um bezerro, morto há trezentos anos.
E eles ainda seguem o caminho tortuoso,
E perdem cem anos por dia;
E assim prestam tamanha reverência
A tão bem firmado precedente.
A lição moral que isto ensina por mim é pregada;

Os homens são propensos a seguirem cegos
Ao longo das trilhas dos bezerros da mente.
E a trabalhar dia a dia, sol a sol.
Para fazer o que outros homens fizeram.
Eles seguem no rastro batido,
Pela beira e pelo meio, para frente e para trás.
Permanecendo ainda em seus tortuosos caminhos,
Mantendo o caminho que outros fizeram,

Eles fizeram do caminho uma trilha sagrada,
Ao longo do qual suas vidas se movem.
Como sorri o velho sábio deus da floresta,
Ele que viu o primeiro bezerro passar!
Ah! Muitas coisas este conto poderia ensinar -
Mas não sou ordenado para pregar.

- Sam Walter Foss

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Escrever Amor nos Braços Dela

To Write Love On Her Arms - http://www.twloha.com

"Escrever Amor Nos Braços Dela"
por Jamie Tworkowski


A banda Pedro The Lion está tocando alto no som do carro e a cidade nos espera do lado de fora das janelas abertas. Ela senta e canta, pernas cruzadas no assento do passageiro, a bonita voz dela escondida no volume. A música é um lugar seguro, e Pedro The Lion é sua banda favorita. Me atinge o fato de que ela não verá esse horizonte por várias semanas, e que nós estaremos sem ela. Eu me inclino para a frente, sabendo que isso será escrito, e pergunto a ela o que diria se essa história tivesse audiência. Ela sorri. "Diga a eles para olhar pra cima. Diga a eles que se lembrem das estrelas."

Talvez fosse melhor eu escrever uma música pra ela, porque músicas não esperam se resolver, e porque músicas significam muito pra ela. Histórias esperam por finais, mas músicas são coisas corajosas e fortes o bastante para cantar quando tudo o que conhecem são trevas. Essas palavras, como muitas palavras, serão escritas próximas da meia noite, entre a tempestade e a calmaria, enquanto ambas tentam alcançá-la.

Renee tem 19 anos. Quando eu a conheci, a cocaína estava fresca em seu organismo. Ela não tinha dormido havia 36 horas e não iria por mais 24. É uma mistura familiar de Coca-Cola, maconha, pílulas e álcool. Ela concordou em nos encontrar, nos ouvir e nos deixar orar. Nós perguntamos à Renee se ela gostaria de vir conosco, deixar para trás essa noite falida. Ela diz que irá para a reabilitação amanhã, mas que ela não está pronta agora. É uma mudança muito grande. Nós oramos e nos despedimos e é difícil ir embora sem ela.

Ela conheceu tanta dor; sonhos assombrosos na infância, a presença quase constante do mal desde então. Ela sentiu o toque de horríveis homens nus, lutou contra a depressão e o vício, e tentou o suicídio. Seus braços trazem marcas das lâminas, cinqüenta cicatrizes que lembram dos cortes feitos por ela mesmo. Seis horas depois que eu a conheci, ela está se sentindo presa, com dois grupos de "amigos" oferecendo caminhos opostos. Todos estão dormindo. O sol está nascendo. Ela dá um grande gole em uma garrafa de licor, pega uma gilete na mesa e se tranca no banheiro. Ela se corta, usando a lâmina para escrever "F*** UP" (algo próximo de "F***-se") bem grande em seu antebraço esquerdo.

A enfermeira no centro de tratamento encontra o ferimento várias horas depois. O centro não tem detox (dieta de desintoxicação), classifica ela como um grande risco, e não a aceita. Nos próximos cinco dias, era será nossa para que a amemos. Nós nos tornamos seu hospital e a possibilidade de cura enche de vida a nossa sala-de-estar. Nada é dito e somos poucos, mas nós seremos a sua igreja, o corpo de Cristo tornando-se vivo para atender as necessidades dela, para escrever amor nos braços dela.

Ela é cheia de contrastes. Mais cheia de vida e próxima da morte do que qualquer um que eu já tenha conhecido, como uma música do Johnny Cash ou alguma estrela do cinema. Ela é dona de uma atitude e humor que vão além dos seus 19 anos, e quando ela me conta sua história, ela é humilde, quieta e gentil, moldada pela dor de cem vidas. Eu me sento, privilegiado mas me quebranto por dentro enquanto ela abre seu coração. Sua vida tem sido tão cheia de trevas mas ainda há alguma leve esperança em suas palavras, e por várias noites consecutivas eu observo as mais belas garotas da sala dizerem-na o quanto é bonita. Eu acho que é Deus lembrando ela.

Eu nunca caminhei por essa estrada, mas decidi que se nós estamos prestes a entrar em um período de reabilitação de cinco dias, vai ser a reabilitação mais legal do país. Vai ser rock and roll. Nós começaremos com o básico: muita diversão, muitas idas ao Starbucks e cigarros até demais.

Quinta à noite ela está no camarote para ver a Band Marino, a melhor de Orlando. Eles são uma banda de "indie-folk-fabulous", um movimento disfarçado de circo. Ela os ama e sorri quando eu aponto para o agente da Atlantic Europe, vindo de Londres, que está na cidade apenas para ver esse show.

Ela está em bons assentos quando o Orlando Magic ganha dos Sonics na noite seguinte, gritando como uma fã de longa data com todas as enterradas de Dwight Howard. No caminho para casa nós paramos para mais café e livros, "Blue Like Jazz" e "Travelling Mercies" (de Anne Lamott's).

No sábado, a turnê "Taste of Chaos" está na cidade e nem tenho certeza de que nós conseguiremos entrar, mas as portas se abrem e minutos após estacionarmos, estamos no palco para ver Thrice, uma de suas bandas favoritas. Ela fica a três metros do baterista, sorrindo constantemente. É um momento brilhante na música, quando luz e chuva colidem acima do palco. Um sentimento de cura. É certamente esperança.

Domingo à noite é a igreja, e muitos se juntam após a reunião para orar por Renee, essa é a última noite antes de entrar na reabilitação. Alguns são estranhos, mas todos são amigos nessa noite. As orações movem-se de quebrantadas para confiantes, todas encorajando-a. Nós estamos falando com Deus, mas eu acho que estamos falando com ela, mostrando o quanto ela é amada, dizendo que ela não irá sozinha. Um de nós a conhece melhor. Ryan senta no canto dedilhando um violão, cantando músicas que ela inspirou.

Após a igreja nossa casa enche de amigos, ali por mais alguns instantes antes de dizer adeus. Todos tem algum presente para ela, alguma carta ou abraço ou pequenos encorajamentos. Ela me puxa de canto e diz que gostaria de me dar algo. Eu sorrio surpreso, me perguntando o que poderia ser. Nós andamos da sala cheia até a garagem, para as coisas dela.

Ela me dá sua última lâmina, me diz que é aquela que ela usou para cortar seu braço e para alinhar suas últimas fileiras de cocaína cinco noites atrás. Ela esteve com a gilete desde então, e me diz que como essa será sua noite mais difícil ela não deveria ficar com aquilo. Eu pego a lâmina com cuidado, agradeço e sei imediatamente que esse momento, esse presente, ficará comigo para sempre. Me atinge o pensamento de que esse grande sentimento é o que Cristo sente quando nós rendemos nossos corações partidos, quando nós trocamos a morte pela vida.

Enquanto chegamos ao centro de tratamento, ela conclui: "As estrelas estão sempre lá, mas sentimos a falta delas entre a poluição e as nuvens. Nós sentimos a falta delas durante tempestades. Diga à todos para lembrarem da esperança. Nós temos esperança."


Eu tenho observado a vida voltar pra ela, e isso tem sido um privilégio. Quando nosso tempo com ela começou, alguém sugeriu que deveria haver retorno, mas essa é a linguagem dos negócios. Amor é algo melhor. Eu tenho sido desafiado e transformado, tenho lembrado que amor é aquela resposta simples de tantas questões difíceis. Don Miller diz que nós somos convocados à darmos as mãos contra as feridas de um mundo quebrado, a fim de parar o sangramento. Eu concordo maravilhosamente.

Nós freqüentemente pedimos a Deus que apareça. Nós oramos pedindo resgate. Talvez Deus nos peça pra sermos esse resgate, para sermos Seu corpo, nos mover para as coisas que importam. Ele não está invisível quando acordamos pra vida. Eu posso ser simples, mas cada vez mais acredito que Deus age no amor, fala pelo amor, é revelado em nosso amor. Eu vi isso essa semana e honestamente, foi bem simples: Pegue uma garota quebrada, trate-a como uma princesa famosa, dê a ela os melhores lugares na casa. Compre o café e os cigarros dela para os próximos dias, livros e coisas de banheiro para os dias que virão. Diga a ela algo verdadeiro quando tudo que ela conhece são mentiras. Diga que Deus a ama. Fale com ela sobre o perdão, a possibilidade da liberdade, diga que ela foi feita para dançar em vestidos brancos. Todas essas coisas são verdade.

Nós somos apenas requisitados para amar, para oferecer esperança à tantos desesperançosos. Nós não podemos escolher todos os finais, mas devemos cumprir o papel de resgatadores. Nós não iremos resolver todos os mistérios, e nossos corações certamente irão se partir em uma vida tão vulnerável, mas esse é o melhor caminho. Nós fomos feitos para ser amantes fortes em lugares despedaçados, derramando de nós por aí vez após vez até sermos chamados pra casa.

Eu aprendi tanta coisa em uma semana com uma garota corajosa. Ela está viva agora, na segurança e na paciência de uma reabilitação, coberta com as de marcas da loucura mas decidindo acreditar que Deus renova as coisas, que Ele significa esperança e cura nas estrelas. Ela iria pedir para você lembrar.

(tradução por Kleber Pessoa)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

E O FUTURO, COMO SERÁ?

Por Daniel Ferreira no blog Chocolate Quente: http://chocolatequente.blogspot.com/2009/02/e-o-futuro-como-sera.html


Trabalho com tecnologia e meu ex-professor e agora chefe da empresa onde estou é uma pessoa a qual admiro e respeito muito. Ele tem a cabeça voltada sempre para o futuro, para as tendências, e por isso é sempre reconhecido no Brasil e no mundo. Recentemente ele deu uma entrevista a revista Marie Claire onde fala como deveria ser um futuro da humanidade se escolhéssemos o caminho correto. Para a surpresa de muita gente, inclusive da repórter, ele afirma que no futuro que deveríamos ter, voltaremos a morar em vilas, a andar a pé pelo bairro e a ter tempo para nossos filhos e amigos. Poxa, que maravilha!!! Pelo menos pra mim, não existe nada melhor do que morar numa vila tranquila, ruas pequenas e conversar com os amigos na beira da calçada, é muito bom!! Mas note que ele falou "se escolher o caminho certo".

"A fim de dar uma espiada no amanhã, fui ao encontro do futurólogo Silvio Meira, 53, pernambucano, doutor em ciência da computação pela University of Kent, Inglaterra, e consultor do Programa da ONU para desenvolvimento científico e tecnológico -entre muitas outras coisas. Numa terça-feira bem cedo, encontrei o cientista no saguão do moderníssimo hotel Unique, em São Paulo. Vestido como um universitário, barba por fazer, casado e pai de três filhos, o professor da Federal de Recife, muito intrigado com a aparência ancestral de meu gravador à pilha e fita cassete, começou a pintar uma imagem do futuro que, dependendo de algumas decisões que tomarmos hoje, poderá ser poética ou apocalíptica. Se optarmos pelo caminho certo, daqui a 30 anos, estaremos morando em vilas, passando mais tempo com nossos filhos e viajando apenas para fazer turismo. Se optarmos pelo caminho certo, em 30 anos, nós, mulheres, teremos conseguido, definitivamente, resolver a equação casa/família/realização profissional e não andaremos pelo mundo carregando as culpas de hoje e o sentimento de estar, todos os dias, em falta com alguma coisa. Se optarmos pelo caminho certo, a tecnologia virá nos libertar e não nos aprisionar. O mundo do futuro, segundo Silvio e apesar de evidências que indicam o contrário, será mais simples. Mas, para chegar lá, é essencial tomarmos, agora, as decisões certas e assumirmos responsabilidade por todas as nossas ações. Caso contrário, o amanhã simplesmente não existirá."
Mesmo se você não trabalha com tecnologia vale a pena ler a reportagem. Clique aqui.

Não quero aqui tirar o crédito de Sílvio Meira pelas sábias palavras, mas simplicidade é uma das coisas que gosto de falar aqui no blog, então não é novidade pra nós nos lembrar que quem já nos deu essa "fórmula" de vida melhor foi Deus. Coisas simples! Deus nos mostra que pra sermos felizes não precisamos inventar muita coisa. Mesmo vivendo num mundo totalmente imerso na tecnologia, podemos sim desfrutar da beleza das pequenas coisas que Deus nos dá, basta olhar em volta! =) Espero que a humanidade realmente tome o rumo certo, não pelo lado da tecnologia, mas voltando-se para o lado de Deus, e como o próprio Jesus falou, "coisas maiores que estas véras" (João 1.50).
Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? (Mt 6.25)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O Mundo de Sofia

"Certa manhã, mamãe, papai e o pequeno Thomas – a esta altura já com dois ou três anos – estão sentados na cozinha tomando o café. De repente, mamãe se levanta, vira-se para a pia e então… bem, então papai começa a flutuar sob o teto da cozinha.

O que você acha que Thomas diria? Talvez ele apontasse o dedo para seu pai e dissesse: “Papai voando!”.

Na certa Thomas ficaria espantado, mas ficar espantado não é novidade para ele. Afinal, o papai faz tantas coisas estranhas que, a seus olhos, um pequeno vôo sobre a mesa do café da manhã não faz lá muita diferença. Todos os dias, por exemplo, seu pai faz a barba com um aparelhinho esquisito, às vezes sobe no telhado e vira a antena da TV, outras vezes enfia a cabeça no compartimento do motor do carro e sai com a cara toda preta lá de dentro.

Agora é a vez da mamãe. Ela ouviu o que Thomas disse e vira-se resoluta. Como você acha que ela reagiria à visão de seu marido voando sobre a mesa da cozinha?

Na mesma hora ela deixa cair o vidro de geléia e solta um grito de pavor. Talvez ela até precise de um médico, depois que papai voltar e sentar-se em sua cadeira. (Há muito tempo ele deveria ter aprendido a se comportar à mesa!)

Por que será que Thomas e mamãe reagem de forma tão diferente? O que você acha?

É uma questão de hábito. (Grave bem isso!) Mamãe aprendeu que as pessoas não podem voar. Thomas não. Ele ainda não tem muita certeza do que é possível e do que não é possível neste mundo.

Mas e quanto ao mundo propriamente dito, Sofia? Você acha que ele é possível? O mundo também fica pairando livremente no espaço.

O triste de tudo isto é que, à medida que crescemos, nos acostumamos não apenas com a lei da gravidade. Acostumamo-nos, ao mesmo tempo, com o mundo em si.

Ao que tudo indica, ao longo da nossa infância nós perdemos a capacidade de nos admirarmos com as coisas do mundo. Mas com isto perdemos uma coisa essencial – algo de que os filósofos querem nos lembrar. Pois em algum lugar dentro de nós, alguma coisa nos diz que a vida é um grande enigma. E já experimentamos isto, muito antes de aprendermos a pensar.

Para ser mais preciso: embora as questões filosóficas digam respeito a todas as pessoas, nem todas se tornam filósofos. Por diferentes motivos, a maioria delas é tão absorvida pelo cotidiano que a admiração pela vida acaba sendo completamente reprimida. (Elas se alojam bem no fundo do pêlo do coelho, fazem um ninho bem confortável e ficam lá embaixo pelo resto de suas vidas.)

Para as crianças, o mundo – e tudo o que há nele – é uma coisa nova; algo que desperta a admiração. Nem todos os adultos vêem a coisa dessa forma. A maioria deles vivencia o mundo como uma coisa absolutamente normal.

E precisamente neste ponto é que os filósofos constituem uma louvável exceção. Um filósofo nunca é capaz de se habituar completamente com este mundo. Para ele ou para ela o mundo continua a ter algo de incompreensível, algo até de enigmático, de secreto. Os filósofos e as crianças têm, portanto, uma importante característica comum. Podemos dizer que um filósofo permanece a sua vida toda tão receptivo e sensível às coisas quanto um bebê."

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Realismo e Fé

O verdadeiro realista, se incrédulo, vai sempre encontrar força e capacidade para descrer do milagroso, e se for confrontado com um milagre como fato irrefutável vai de preferência descrer de seus próprios sentidos em vez de admitir o fato. A fé não [...] brota do milagre, mas o milagre da fé.

Fiodor Dostoievski

Ortodoxia - G. K. Chesterton

Poucos no Brasil conhecem Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), escritor cristão inglês. Celebremos, portanto, a publicação em português de sua obra-prima Ortodoxia (Orthodoxy: The Romance of Faith), de 1908. Um século de atraso não é demais para os padrões brasileiros. Ainda que tardio, o lançamento é oportuno, quando, por um lado, tantos tratados ateus estão chegando às livrarias e, por outro, o fundamentalismo religioso nos enche de horror.

Chesterton caminhou do racionalismo (origem tanto do liberalismo quanto do fundamentalismo teológicos) à compreensão da “ortodoxia”, fazendo o caminho inverso de tantos, da fé em Cristo para a fé na ciência e na razão. Ele não é um irracionalista pleno de misticismo barato. Usa a inteligência, mas seu pensamento é propositadamente assistemático. Seus livros de apologética cristã são todos provocadores e surpreendentes. Ele defende a fé de forma inovadora, empolgante, sem ser maçante, como é comum em apologética. Chesterton não é repetitivo nem professoral. Com ele enxergamos novas formas de apreciar o cristianismo e de entender seu valor singular.

Conhecido entre os amigos como “G.K.”, era uma figura peculiar. Chamado de “o príncipe do paradoxo”, era afável, bem humorado e distraído. Era alto e gordo como poucas vezes se vê. Opunha-se às políticas imperialistas britânicas (The Napoleon of Notting Hill). Escreveu sobre Robert Browning e Charles Dickens, e se tornou famoso como crítico literário. Foi brilhante ao discorrer sobre Tomás de Aquino (Saint Thomas Aquinas: The Dumb Ox) e Francisco de Assis. Escreveu peças de teatro, poemas e os romances de ficção policial que o deixaram famoso (bem como seu detetive-teólogo, o padre Brown). É preciso citar o enigmático suspense O Homem que Foi Quinta-Feira.

Ateu aos 12 anos e agnóstico aos 16, retornou para a Igreja Anglicana após o feliz casamento com Frances Blogg, em 1901. Após esta sua primeira conversão, o escritor e jornalista Robert Blatchford publicou uma série de textos condenando o cristianismo e o teísmo em geral. Chesterton respondeu com seu primeiro livro de sucesso, Heréticos (Heretics, 1903) que traz a primeira apresentação de sua compreensão peculiar da fé cristã, que seria expressa mais explícita e completamente cinco anos depois no livro Ortodoxia, na verdade, uma coletânea de ensaios mais ou menos independentes uns dos outros, no estilo fascinante deste literato que, na época da publicação, tinha apenas 34 anos de idade. Aos 48 anos, Chesterton converteu-se ao catolicismo romano (1922). Muitos autores anglicanos influentes, como John Henry Newman e Thomas Howard, fizeram o mesmo. Foi então que escreveu sua obra apologética mais madura, The Everlasting Man (1925), na qual também explica suas razões.

No capítulo “O Maníaco”, Chesterton rejeita o predestinacionismo como uma forma de religiosidade doentia. O que “o príncipe do paradoxo” entende por uma “perigosa ortodoxia” e pela “emocionante aventura da ortodoxia” é algo bem diferente do neognosticismo e neofarisaísmo que encontramos hoje no mundo evangélico brasileiro e norte-americano. A “ortodoxia” de Chesterton é anti-sectária, de tendências irênicas. Ele é anti-racionalista e, portanto, avesso às teologias sistemáticas fundadas na inferência dedutiva. É humanista em seu combate ao tecnicismo e a todas as formas de desumanização promovidas pelo avanço da civilização tecnológica. A Ortodoxia de Chesterton é, segundo ele mesmo afirma, “uma emocionante aventura” que inclui a adoção da “ética dos elfos” e a militância na “revolução eterna”. A esta altura já deve ter ficado claro para o leitor que ela não vai agradar os guardiões da sã doutrina.

• Ricardo Quadros Gouvêa é ministro presbiteriano e professor de teologia e de filosofia.

Fonte eletrônica:
http://www.ultimato.com.br