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terça-feira, 7 de abril de 2009

A Queda (suposições e reflexões de C.S. Lewis)

O que aconteceu exatamente quando o homem caiu, não sabemos; mas se é legítimo fazer conjeturas, ofereço o seguinte quadro: um "mito" no sentido socrático,[1] uma narrativa plausível.

 Durante longos séculos Deus aperfeiçoou a forma animal que iria tomar-se o veículo da humanidade e a imagem de Si mesmo. Ele deu-lhe mãos cujo polegar podia ser aplicado a cada um dos dedos, e mandíbula, dentes e garganta articulados, assim como um cérebro suficientemente complexo para executar todos os movimentos materiais dando Julgar ao pensamento racional. A criatura pode ter existido durante séculos neste estado antes de tomar-se homem: pode ter sido até mesmo inteligente o bastante para fazer coisas que o arqueólogo moderno aceitaria como prova de sua humanidade. Mas não passava de um animal porque todos os seus processos físicos eram dirigidos a fins puramente materiais e naturais. Então, na plenitude do tempo, Deus fez descer sobre este organismo, tanto na sua psicologia como fisiologia, uma nova espécie de consciência que podia dizer "eu" e "mim", que podia olhar para si mesma como um objeto, que conhecia Deus, que podia fazer juízos quanto à verdade, beleza e bondade, e que estava tão acima do tempo que podia percebê-lo passar.

 Esta nova consciência governava e iluminava o organismo inteiro, enchendo de luz cada uma de suas partes; não sendo, como o nosso, limitado a uma seleção dos movimentos existentes numa parte dele, a saber, o cérebro. O homem era então todo consciência. O iogue moderno alega - seja com verdade ou falsamente - ter sob controle essas funções que para nós fazem praticamente parte do mundo exterior, como a digestão e a circulação. O primeiro homem tinha eminentemente este poder. Seus processos orgânicos obedecem à lei da sua própria vontade e não à da natureza. Seus órgãos enviavam apetites ao tribunal da vontade, não porque fossem obrigados a isso, mas porque assim o desejavam. O sono não era para ele o estupor em que caímos, mas um repouso consciente e voluntário – permanecia acordado para gozar do prazer e necessidade do sono. Desde que os processos de decadência e reparo de seus tecidos eram da mesma forma conscientes e obedientes, não é fantasioso supor que a duração de sua vida fosse um aspecto que ficava praticamente a seu critério.

 Pelo fato de comandar inteiramente a si mesmo, ele dominava todas as formas inferiores de vida com as quais entrava em contato. Encontramos ainda hoje alguns raros indivíduos que possuem um misterioso poder para domesticar feras. O homem paradisíaco gozava deste poder de maneira notável. O velho quadro dos animais brincando diante de Adão e fazendo-lhe festas pode não ser inteiramente simbólico. Até mesmo agora mais animais do que podemos supor estão prontos a adorar o homem se lhes for dada uma oportunidade razoável: pois o homem foi feito para ser o sacerdote e mesmo, num certo sentido, o Cristo, dos animais - o mediador através do qual eles

apreendem tanto do esplendor divino quanto sua natureza irracional permite. E Deus,  ara tal homem, não representava um plano inclinado, escorregadio. A nova consciência tinha sido feita para repousar em seu Criador, e assim fez.

 Por mais rica e variada que fosse a experiência do homem em relação a seus semelhantes (ou semelhante) quanto à caridade e amizade, ao amor sexual, ou quanto aos animais ou ao mundo que o rodeava, pela primeira vez reconhecido como belo e terrível, Deus vinha em primeiro lugar no seu amor e pensamentos, e isso sem qualquer esforço penoso. Num perfeito movimento cíclico, o ser, o poder e a alegria, desciam de Deus para o homem na forma de amor obediente e adoração extática: e neste sentido, embora não em todos, o homem era então verdadeiramente o filho de Deus, o protótipo de Cristo, representando perfeitamente na alegria e relaxamento de todas as faculdades e sentidos aquela rendição filial que Nosso Senhor representou nas agonias da crucificação.

 Julgado pelos seus artefatos e talvez até mesmo pela sua linguagem, esta criatura abençoada era sem dúvida um selvagem. Tudo o que a experiência e a prática podem ensinar estava ainda para ser aprendido: se cortava gravetos, com certeza era muito desajeitado. Pode ter sido absolutamente incapaz de expressar de forma conceitual sua experiência paradisíaca. Tudo isso é irrelevante. De nossa infância, podemos lembrar que antes dos mais velhos nos considerarem capazes de "compreender" qualquer coisa, já tínhamos experiências espirituais tão puras e momentosas como quaisquer outras que tenhamos tido desde então, embora não fossem naturalmente tão ricas em seu contexto real.

 Do próprio cristianismo podemos aprender que existe um nível - a longo prazo o único nível de importância - em que os eruditos e os adultos não têm qualquer vantagem sobre os simples e as crianças. Não tenho dúvidas de que se o homem paradisíaco surgisse agora entre nós, iríamos considerá-lo um completo selvagem, uma criatura a ser explorada ou, pelo menos, tratada com condescendência. Apenas um ou dois, e esses estariam entre os mais santos dentre nós, iriam lançar um segundo olhar para essa criatura nua, barbuda, de fala arrastada: mas eles, dentro de poucos minutos, cairiam a seus pés.

 Não sabemos quantas dessas criaturas Deus fez, nem por quanto tempo continuariam no estado paradisíaco. Mas, mais cedo ou mais tarde, elas caíram. Alguém ou alguma coisa lhes sussurrou que poderiam tornar-se como deuses - que podiam deixar de manter Suas vidas na direção do Criador e aceitar todos os seus prazeres como dádivas não convencionais, como "acidentes" (no sentido lógico) surgidos no decorrer de uma vida dirigida à adoração de Deus e não a esses prazeres.

 Da mesma forma que o jovem deseja uma mesada do pai, que possa considerar como sua, com a qual faz seus próprios planos (e com justiça, pois o pai é afinal de contas um semelhante) eles também desejavam agir por conta própria, cuidar de seu futuro, planejar para o seu prazer e segurança, ter um meum do qual sem dúvida pagariam um tributo razoável a Deus em termos de tempo, atenção, e amor, mas que em todo caso era deles e não dEle. Eles queriam, como dizemos hoje, ser "seus próprios donos". Mas isso significa viver uma mentira, porque na verdade não somos donos de nós mesmos, nossa alma não é nossa. Eles queriam um lugar no universo de onde pudessem dizer a Deus: "Este negócio é nosso e não seu." Mas não existe um canto assim. Eles queriam ser substantivos, mas eram, e serão eternamente, simples adjetivos. Não temos idéia em que ato, ou série de atos, o desejo contraditório, impossível, encontrou expressão. Por tudo o que sei, pode ter ligação com o ato de comer literalmente uma fruta, mas a questão não é importante.

 Este ato de obstinação por parte da criatura, que constitui uma absoluta falsidade em relação à sua posição de criatura, é o único pecado que pode ser concebido como a Queda. A dificuldade com respeito ao primeiro pecado é que ele deve ser hediondo, caso contrário suas conseqüências não seriam tão terríveis, embora seja ao mesmo tempo algo que um ser, livre das tentações do homem decaído, possa ter possivelmente praticado. O desvio de Deus para o "eu" cumpre ambas as condições. É um pecado possível até mesmo ao homem paradisíaco, pois a simples existência de um "eu" – o mero fato de o chamarmos "mim" - inclui, desde o princípio, o perigo da auto-idolatria. Desde que eu sou eu, devo realizar um ato de auto-rendição, por menor ou mais fácil que seja, vivendo para Deus em lugar de para mim mesmo.

 Este é o "ponto fraco" na própria natureza da criação, o risco que Deus aparentemente julga valer a pena aceitar. Mas o pecado foi hediondo porque o "eu" que o homem paradisíaco teve de render não continha uma resistência natural ao ato de render-se. Seus dados, por assim dizer, eram um organismo psicofísico inteiramente sujeito à vontade e uma vontade inteiramente disposta, embora não compelida, a voltar-se para Deus. A autoentrega que ele praticou antes da Queda não envolveu qualquer esforço, mas apenas a agradável vitória sobre uma auto-aderência infinitesimal que causou prazer ao ser vencida - no que vemos uma leve analogia na auto-entrega extasiada dos amantes de hoje. Ele não tinha, portanto, qualquer tentação (no sentido dado por nós) para escolher o "eu" – nenhuma paixão ou inclinação voltada obstinadamente para esse lado – nada além do simples fato de que o ego era ele mesmo.

 Até esse momento o espírito humano tinha estado em pleno controle do organismo humano, e sem dúvida esperava que reteria esse controle quando deixou de obedecer a Deus. Mas sua autoridade sobre o organismo não passava de uma autoridade delegada que perdeu quando deixou de ser o delegado de Deus. Pelo fato de ter-se afastado, na medida do possível, da fonte de seu ser, ele também rompeu sua ligação com a fonte de poder. Quando dizemos quanto às coisas criadas que A domina B, isto deve significar que Deus domina B através de A. Duvido que fosse intrinsecamente possível para Deus continuar a ter domínio sobre o organismo através do espírito humano quando este se rebela contra Ele. Pelo menos, não o fez. Passou a governar o organismo de maneira mais extrema, não mais pelas leis do espírito, mas pelas da natureza.[2] Assim sendo, os órgãos, não mais governados pela vontade do homem, caíram sob o controle das leis bioquímicas comuns e sofreram as interações que essas leis provocaram na forma de dor, senilidade e morte.

 Os desejos começaram a surgir na mente do homem, não de conformidade com a escolha feita pela sua razão, mas como os fatos bioquímicos e ambientais os provocavam. A própria mente sujeitou- se às leis psicológicas da associação e outras que Deus tinha feito para governar a psicologia dos antropóides superiores. E a vontade, apanhada na maré da simples natureza, não teve outro recurso senão restringir alguns dos novos pensamentos e desejos pela força, e esses rebeldes inconformados se tomaram o subconsciente como o conhecemos hoje. O processo, segundo penso, não foi comparável à simples deterioração como pode ocorrer agora no indivíduo da espécie humana; mas tratou-se de uma perda de posição como espécie. O que o homem perdeu com a Queda foi sua natureza original específica. "Tu és pó e ao pó voltarás." O organismo total que se elevara até sua vida espiritual voltou à condição simplesmente natural de que, ao ser feito, tinha saído – assim como, muito antes na história da criação, Deus elevara a vida vegetal para tomar-se o veículo da animalidade, e o processo químico para tornar-se o veículo da vegetação, e o processo físico para tornar-se o veículo do químico. O espírito humano, de senhor da natureza humana, passou a ser um simples hóspede em sua própria casa, ou até mesmo um prisioneiro; a consciência racional transformou-se no que agora é - um facho de luz vacilante repousando em uma pequena parcela dos movimentos cerebrais. Mas esta limitação dos poderes do espírito foi um mal menor do que a corrupção do espírito em si. Ele se afastara de Deus e se tomara o seu próprio ídolo; e assim, embora pudesse ainda voltar a Deus,[3] só podia fazê-lo mediante um grande esforço, e sua indignação era dirigida ao "eu".

 Dessa forma o orgulho e a ambição, o desejo de ser belo a seus próprios olhos e de oprimir e humilhar todos os rivais, a inveja e a busca incessante de mais e mais segurança, eram agora as atitudes que tomava com maior facilidade. Ele não era apenas um rei fraco sobre a sua natureza, mas um mau rei: enviando ao organismo psicofísico desejos bem piores do que este os enviava a ele. Esta condição foi transmitida a todas as gerações posteriores pela hereditariedade, pois não se tratava simplesmente do que os biólogos chamam de uma variação adquirida; mas da emergência de um novo tipo de homem – uma nova espécie, jamais feita por Deus, tinha passado a existir mediante o pecado. A mudança pela qual o homem passara não era paralela ao desenvolvimento de um novo órgão ou um novo hábito; tratava-se, entretanto, de uma alteração radical de sua constituição, um distúrbio da relação entre as suas partes componentes, e uma perversão interna de uma delas.

 Deus poderia ter suspenso este processo através de um milagre: mas isto - falando por metáfora algo irreverente - seria declinar o problema que Deus, Ele mesmo, tinha estabelecido ao criar o total de um mundo contendo agentes livres, apesar de, e por meio de, sua rebelião contra Ele. O símbolo de um drama, uma sinfonia, ou uma dança, é útil aqui para corrigir um certo absurdo que pode surgir se falarmos demasiado a respeito de Deus planejar e criar o processo do mundo para o bem e de esse bem ser frustrado pelo livre-arbítrio das criaturas.

 Isto pode levantar a idéia ridícula de que a Queda tomou Deus de surpresa e atrapalhou os seus planos, ou então - mais ridículo ainda - que Deus planejou tudo para condições que, Ele bem sabia, jamais iriam ser cumpridas. De fato, como é natural, Deus viu a crucifixão no ato de criar a primeira nebulosa. O mundo é uma dança em que o bem, procedente de Deus, é perturbado pelo mal que sobe das criaturas, e o conflito resultante é resolvido pela suposição do próprio Deus da natureza sofredora que o mal produz. A doutrina da Queda voluntária afirma que o mal que produz assim o combustível ou a matéria-prima para o segundo e mais complexo tipo de bem não é contribuição de Deus mas do homem. Isto não quer dizer que se o homem tivesse permanecido inocente, Deus não poderia então ter inventado um todo sinfônico igualmente esplêndido - supondo que insistamos em fazer perguntas desse tipo.

 Mas deve ser sempre lembrado que quando falamos do que poderia ter acontecido, de contingências fora de toda realidade, não sabemos na verdade do que estamos falando. Não existem tempos nem lugares fora do universo existente em que tudo isto "poderia

acontecer" ou "poderia ter acontecido". Penso que a maneira mais significativa de afirmar a verdadeira liberdade do homem é dizer que se existirem outras espécies racionais além dele, em alguma outra parte do universo atual, então não é necessário supor que elas também tenham decaído.

 


[1] Isto é, um relato do que pode ter sido o fato histórico. Não devendo ser Confundido com "mito" na opinião do Dr. Niebuhr (I.e., uma representação simbólica da verdade não-histórica.)

[2] Este é um desenvolvimento do conceito de Hooker sobre a Lei. Desobedecer á sua própria lei (1.e., a lei que Deus faz para um ser como você) significa ver-se obedecendo a uma das leis inferiores de Deus: e.g., se ao andar num pavimento escorregadio, você negligenciar a lei da prudência, irá encontrar-se repentinamente obedecendo à lei da gravidade.

[3] 0s teólogos irão notar que não pretendo fazer aqui qualquer contribuição á controvérsia pelágioagostiniana. Quero indicar unicamente que tal volta a Deus não era nem é uma impossibilidade. Onde fica a iniciativa de tal retomo é uma questão sobre a qual não me atrevo a dizer nada.


C. S. Lewis em O Problema do Sofrimento

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O Grande Vício

Existe um vício do qual homem algum está livre, que causa repugnância quando é notado nos outros, mas do qual , com a exceção dos cristãos, ninguém se acha culpado. Não existe nenhum outro defeito que torne alguém tão impopular, e mesmo assim não existe defeito mais difícil de ser detectado em nós mesmos. Quanto mais o temos, menos gostamos de vê-lo nos outros.

O vício de que estou falando é o orgulho. De acordo com os mestres cristãos, o vício fundamental, o mal supremo, é o orgulho. É por causa dele que o diabo se tornou o que é. O orgulho leva a todos os outros vícios; é o estado mental mais oposto a Deus que existe.

O prazer do orgulho não está em se ter algo, mas somente em se ter mais que a pessoa ao lado. É a comparação que torna uma pessoa orgulhosa: o prazer de estar acima do restante dos seres.

Como podem existir pessoas evidentemente cheias de orgulho que declaram acreditar em Deus e se consideram muitíssimo religiosas? Infelizmente, elas adoram um deus imaginário. Na teoria, admitem que não são nada comparadas a esse deus fantasma, mas na prática passam o tempo todo a imaginar o quanto ele as aprova e as tem em melhor conta que ao resto dos comuns mortais. Ou seja, pagam alguns tostões de humildade imaginária para receber uma fortuna de orgulho em relação a seus semelhantes.

Sempre que constatamos que nossa vida religiosa nos faz pensar que somos bons - sobretudo, que somos melhores que os outros -, podemos ter certeza de que estamos agindo como marionetes, não de Deus, mas do Diabo. O diabo ri às gargalhadas. Fica satisfeitíssimo de nos ver castos, corajosos e controlados desde que, em troca, prepare para nós uma Ditadura do Orgulho. Do mesmo modo, ele ficaria contente de curar frieiras dos nossos pés se pudesse, em troca, nos deixar com câncer. O orgulho é um câncer espiritual: ele corrói a possibilidade mesma do amor, do contentamento e até do bom senso.

Se alguém quer adquirir a humildade, creio poder dizer-lhe qual é o primeiro passo: é reconhecer o próprio orgulho. Aliás, é um grande passo. O mínimo que se pode dizer é que, se ele não for dado, nada mais poderá ser feito. Se você acha que não é presunçoso, isso significa que você é presunçoso demais.

(C.S. Lewis em Cristianismo Puro e Simples)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A Fé

Só podemos descobrir que somos incapazes de cumprir a Lei de Deus depois de tentar cumpri-la com todas as nossas forças (e fracassar em seguida). Se não tentarmos, continuaremos pensando em nosso íntimo que, se nos esforçarmos mais na próxima vez, conseguiremos ser simplesmente bons. Assim, em certo sentido, a estrada que nos leva de volta a Deus é a do esforço moral, a via da auto-superação. Mas, em outro sentido, não é o esforço que nos levará para casa. Toda força que fazemos nos conduz ao momento crucial em que nos voltamos para Deus e lhe dizemos: "O Senhor tem de fazer isso. Não consigo".

Imploro que vocês não comecem a se perguntar: "Será que já cheguei a esse momento?" Não fique sentado esperando, observando a própria mente para ver se o momento está chegando. Isso o levará a tomar o bonde errado. O homem que começa a querer saber se vai conseguir dormir ou não com toda probabilidade vai passar a noite em claro.Essa mudança pode se dar de forma tão gradual que ninguém consiga apontar uma hora específica, ou mesmo o ano em que aconteceu. É a mudança do sentimento de confiança em nossos próprios esforços para um estado em que nos desesperamos completamente e deixamos tudo nas mãos de Deus.Num sentido, toda a vida cristã se baseia em aceitar essa oferta extraordinária.

A dificuldade está em chegar ao ponto de reconhecer que tudo o que fazemos e podemos fazer se resume a nada.Num outro sentido ainda, é claro que deixar tudo nas mãos de Cristo não significa que devemos parar de nos esforçar. confiar nele significa tentar fazer tudo o que ele disse. Não há sentido em dizer que confiamos em tal pessoa se não aceitamos seus conselhos. Logo, se você realmente se entregou nas mãos dele, conclui-se daí que está tentando obedecer-lhe. No entanto, está tentando de uma forma nova, menos preocupada. Não está fazendo essas coisas para ser salvo, mas porque ele já começou a salvá-lo. Não está esperando ganhar o paraíso como recompensa das suas ações, mas quer inevitavelmente agir de uma determinada forma porque já tem dentro de si os primeiros e tênues vislumbres do paraíso.

(C. S. Lewis - Cristianismo Puro e Simples)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Entrevista com C. S. Lewis

Segundo informações, as questões foram formuladas por empregados da Electric and Musical Industries Ltd., Heyes, Middlesex, Inglaterra, em 18 de abril de 1944.

Para quem não o conhece, Clive Staples Lewis, ou simplesmente C.S. Lewis, produziu uma vasta obra literária, foi autor da famosa série As Crônicas de Nárnia e é considerado por muitos o maior pensador cristão do século XX - pela sobriedade e lucidez das respostas a seguir dá pra imaginar a razão disto.


Pergunta: Qual das religiões do mundo confere a seus seguidores maior felicidade?

Lewis: Qual das religiões do mundo confere a seus seguidores maior felicidade? Enquanto dura, a religião da auto-adoração é a melhor. Tenho um velho conhecido já com seus 80 anos de idade, que vive uma vida de inquebrantável egoísmo e auto-adoração e é, mais ou menos, lamento dizer, um dos homens mais felizes que conheço. Do ponto de vista moral, é muito difícil. Eu não estou abordando o assunto segundo esse ponto de vista. Como vocês talvez saibam, não fui sempre cristão. Não me tornei religioso em busca da felicidade. Eu sempre soube que uma garrafa de vinho do Porto me daria isso. Se você quiser uma religião que te faça feliz, eu não recomendo o cristianismo. Tenho certeza que deve haver algum produto americano no mercado que lhe será de maior utilidade, mas não tenho como lhe ajudar nisso.

Pergunta: Os materialistas e alguns astrônomos sugerem que o sistema solar e a vida como a conhecemos foram criados por uma colisão estelar acidental. Qual é a visão cristã dessa teoria?

Lewis: Se o sistema solar foi criado por uma colisão estelar acidental, então o aparecimento da vida orgânica neste planeta foi também um acidente, e toda a evolução do Homem foi um acidente também. Se é assim, então todos nossos pensamentos atuais são meros acidentes – o subproduto acidental de um movimento de átomos. E isso é verdade para os pensamentos dos materialistas e astrônomos, como para todos nós. Mas se os pensamentos deles – isto é, do Materialismo e da Astronomia – são meros subprodutos acidentais, por que devemos considerá-los verdadeiros? Não vejo razão para acreditarmos que um acidente deva ser capaz de me proporcionar o entendimento sobre todos os outros acidentes. É como esperar que a forma acidental tomada pelo leite esparramado pelo chão, quando você deixa cair a jarra, pudesse explicar como a jarra foi feita e porque ela caiu.

Pergunta: A aplicação dos princípios cristãos daria um fim ou reduziria enormemente o progresso material e científico? Em outras palavras, é errado para um cristão ser ambicioso e lutar por progresso material?

Lewis: É mais fácil pensar num exemplo mais simples. Como a aplicação dos princípios cristãos afetaria alguém numa ilha deserta? Seria menos provável que esse cristão isolado construísse uma cabana? A resposta é “Não”. Pode chegar um momento em que o Cristianismo o diga para se preocupar menos com a cabana, isto é, se ele estiver a ponto de considerar a cabana a coisa mais importante do universo. Mas, não há nenhuma evidência de que o Cristianismo o impediria de construir um abrigo. Ambição! Devemos ter cuidado sobre o que queremos dizer com essa palavra. Se for desejo de passar à frente de outras pessoas – que é o que eu penso que quer dizer – então, ela é uma coisa má. Se significar apenas desejo de fazer bem uma coisa, então é boa. Não é errado para um ator querer atuar tão bem quanto possível, mas desejar ter seu nome escrito com uma letra maior do que a de outros atores, isso sim é errado.

Pergunta: Tudo bem em ser General, mas se alguém tiver a ambição de ser General, então não dever ser.

Lewis: O mero evento de se tornar um General não é nem certo, nem errado em si mesmo. O que importa moralmente é sua atitude em relação a isso. O homem pode estar pensando em vencer a guerra; ele pode estar desejando em ser General porque honestamente pensa que tem um bom plano, e ficará feliz em colocá-lo em prática. Isso está ok. Mas, se ele pensa: “O que posso ganhar com esse emprego?” ou “O que devo fazer para aparecer na primeira página do Illustrated News?” então, isso é errado. O que chamamos de ambição, usualmente, significa o desejo de ser mais notável ou mais bem sucedido que outra pessoa. É o elemento competitivo que é nocivo. É perfeitamente razoável querer dançar melhor ou ter uma aparência melhor do que outros – quando você começar a perder o prazer se outros dançarem melhor que você ou tiverem uma melhor aparência, então você está indo na direção errada.